Pesquisadores iniciam trabalho de mapeamento para elaborar uma série de ações, unindo ciência, saneamento e infraestrutura verde para preservar meio ambiente
Aichely da Silva

Doutora em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com estágio de Doutorado Sanduíche na Universidade do Algarve (UAlg) – Portugal. Mestra em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual do Maranhão (2010).

O Rio Tocantins não é apenas uma massa de água cortando o mapa do Brasil; é o sistema circulatório de ecossistemas inteiros e o sustento de milhares de famílias. Sendo um dos principais rios que corta o Maranhão, esse “gigante” está perdendo o fôlego no estado. Entre o avanço desordenado das cidades e o despejo silencioso de esgotos, uma equipe de pesquisadores iniciou um trabalho para entender a gravidade do quadro e, mais importante, como revertê-lo.
Por meio do projeto de pesquisa “Futuro sustentável: adaptando os recursos hídricos dos municípios da Região Tocantina do Maranhão às mudanças climáticas”, a pesquisadora Aichely Rodrigues da Silva, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), busca estratégias para promover a sustentabilidade ambiental, visando à gestão sustentável dos recursos hídricos, saneamento ambiental, ao enfrentamento das mudanças climáticas e à redução dos riscos de desastres.

De forma inovadora para o Maranhão, o projeto pretende utilizar e adaptar para a realidade local a metodologia DPSIR (Driven forces – forças motrizes, Pressure – pressão, State – estado, Impact – impacto e Response – resposta), que oferecerá uma visão sistêmica sobre as dinâmicas na escala local e regional. O projeto busca também disponibilizar os dados em formato de cartografia Web, incentivando a disseminação de informações para o público em geral.
Ainda de acordo com o trabalho que está sendo desenvolvido pela pesquisadora, uma gestão sustentável dos recursos hídricos e do saneamento ambiental reduz de forma significativa a vulnerabilidade territorial aos impactos das mudanças climáticas, pois promove a melhoria da qualidade ambiental dos corpos d’água, amplia a capacidade de infiltração e armazenamento hídrico nos sistemas naturais e minimiza a exposição da população a enchentes, secas e processos de contaminação.
“A implementação de tratamento de esgoto, o manejo adequado de resíduos sólidos e a proteção de áreas naturais mitigam processos de poluição, assoreamento e obstrução da drenagem urbana, enquanto a restauração de matas ciliares e a adoção de soluções baseadas na natureza aumentam a resiliência hidrológica dos cursos d’água”, assegura.

Esse conjunto de intervenções que estão no escopo do trabalho em desenvolvimento por Aichely Rodrigues da Silva visa garantir a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais, reduzindo custos futuros associados à reconstrução das cidades e à saúde pública, além de elevar a capacidade adaptativa do território, tornando-o mais preparado para enfrentar eventos climáticos extremos e diminuir o risco de desastres socioambientais.

Segundo a pesquisadora Aichely Rodrigues da Silva, o projeto está na etapa inicial de levantamento e consolidação de informações, que envolve as seguintes frentes principais: pesquisa sistemática (revisão de estudos, relatórios técnicos, artigos científicos e demais materiais já publicados sobre a área e o tema analisado); pesquisa bibliográfica (aprofundamento teórico), coleta de amostras ambientais (água, sedimento e material biológico) no Rio Tocantins e início das análises laboratoriais.
“Além disso, estamos incorporando dados climáticos para compreender padrões ambientais, variações sazonais e possíveis impactos sobre a dinâmica do rio e dos ecossistemas associados. Esses elementos combinados permitirão construir uma base sólida para as próximas etapas do estudo e para a interpretação integrada dos resultados”, informa a pesquisadora Aichely Rodrigues da Silva.
O trabalho, que é desenvolvido em parceria com o pesquisador Marcelo Francisco da Silva, é um dos 71 projetos selecionados pelo edital alinhado ao Plano Maranhão 2050, que é ligado a Soluções Inovadoras, lançado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). O objetivo é fomentar projetos que promovam o desenvolvimento sustentável e a inovação no estado, alinhados às metas de longo prazo para a transformação socioeconômica maranhense.
Projeto tem como uma das metas a preservação do potencial do rio
O estudo tem grande relevância para o estado porque a bacia do Rio Tocantins possui diversas atividades econômicas, incluindo a mineração, agroindústria, metalúrgica e agropecuária; além de ser receptora do lançamento de efluentes domésticos e industriais, sem o tratamento adequado. Além disso, o rio também tem um enorme potencial para a geração de energia hidrelétrica, porém, com as mudanças climáticas, seu volume de água pode diminuir nas próximas décadas, o que comprometeria todas estas atividades com potencial de desenvolvimento econômico, social e ambiental.
A pesquisadora também destaca que ainda é possível impedir a degradação da bacia do Rio Tocantins. “A curto prazo, é essencial reforçar a fiscalização do uso do solo nas áreas de Preservação Permanente (APPs) para conter desmatamentos, ocupações irregulares e práticas agrícolas inadequadas, além de instalar e ampliar de forma emergencial o saneamento básico em áreas críticas, aprimorar a gestão dos resíduos sólidos e estruturar comitês de bacia para fortalecer a governança hídrica”, observa.
Em médio prazo, torna‑se necessário avançar na recuperação ambiental, promovendo a restauração gradual da qualidade hídrica, implementar um planejamento urbano capaz de conter a expansão desordenada e ampliar a implantação de infraestrutura verde. “Já a longo prazo, é preciso consolidar a recuperação ampla de ecossistemas degradados e o desenvolvimento de cidades ribeirinhas mais resilientes, integrando gestão hídrica, planejamento urbano e soluções baseadas na natureza”, aponta Aichely Rodrigues da Silva.





