Como um ativo biológico do Nordeste brasileiro pode resolver o dilema ético da inteligência artificial: o consumo voraz de água e energia para resfriar os servidores do futuro
Welton Martins
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Licenciado em Química pelo IFMA e ex-mestrando em Engenharia Química pela UFPA. Diretor de Inovação na Globaltec Tecnologias Educacionais LTDA, atua no desenvolvimento e gestão de soluções em educação, robótica, IoT, IA e conteúdos multimídia.
O som rítmico do machado quebrando a casca rígida do babaçu é o primeiro passo de uma cadeia produtiva com o potencial de chegar até o processamento de trilhões de dados por segundo. No Maranhão, a infraestrutura que alimenta inteligências artificiais e sistemas complexos de Big Data encontrou no extrativismo artesanal o seu aliado mais improvável. O projeto da Proodos Tecnologia submerge o silício dos chips em um banho térmico de óleo de coco enriquecido, substituindo a infraestrutura pesada de refrigeração por uma solução biológica local. Este ‘casamento’ entre o saber das quebradeiras e a fronteira da soberania digital coloca o estado na vanguarda de uma nova era.
Neste novo contexto, a alta tecnologia não ignora a floresta, mas depende profundamente de sua preservação e de sua química natural. “Nosso objetivo foi unir a fronteira da tecnologia de computação com o que o Maranhão tem de mais autêntico. Não estamos apenas construindo um prédio com computadores; estamos provando que o ativo biológico do nosso estado, o babaçu, tem propriedades físico-químicas capazes de resolver gargalos da indústria global de tecnologia”, explica Welton da Cruz Martins, proponente do projeto aprovado no edital Maraintech.
O edital foi lançado pela FAPEMA em 2025 e ofertou R$500 mil em recursos voltados ao fomento da inovação tecnológica e à preservação do patrimônio cultural no estado.

A infraestrutura que sustenta nossa vida digital tem um custo ambiental invisível e crescente. Gigantes como Google e Microsoft consumiram bilhões de litros de água em 2023 para resfriar seus centros de dados. Um estudo recente indicou que o treinamento do GPT-4, da OpenAI, pode ter “bebido” o equivalente a um copo de água para cada poucas dezenas de prompts gerados. Em um mundo sob crise climática, gastar água potável para manter servidores frios tornou-se um dilema ético e logístico global. O resfriamento tradicional por ar e água é ineficiente e caro, representando quase 40% da conta de energia dessas instalações.
É aqui que entra o projeto liderado pela Proodos Tecnologia. A solução não busca apenas eficiência, mas uma quebra de paradigma: a imersão líquida. Ao contrário do ar, que é um isolante térmico pobre, o óleo de babaçu — enriquecido com nanopartículas — é um condutor de calor excepcional.
O sistema projeta um PUE (Eficiência de Uso de Energia) igual ou menor que 1,05. Em termos leigos: para cada 1 watt usado para processar dados, apenas 0,05 watt é gasto em resfriamento. É um número próximo da perfeição termodinâmica. “O resfriamento por imersão líquida é o futuro da infraestrutura digital. Ao utilizarmos um fluido biodegradável enriquecido com nanopartículas, conseguimos um índice de eficiência excelente, que reduz drasticamente a pegada de carbono enquanto eliminamos totalmente o uso de água potável, algo que as maiores empresas do mundo ainda lutam para resolver.” Explica Welton Martins.
O uso desse “fluido dielétrico” vegetal elimina a necessidade de água e reduz o consumo elétrico drasticamente, permitindo que o Maranhão ofereça uma nuvem verde com custos até 50% menores que os competidores internacionais.

O fator humano: As artesãs da matéria-prima
Neste cenário, as quebradeiras de coco babaçu não são figuras do passado, mas pilares do futuro. A tecnologia de imersão exige um óleo de extrema pureza e estabilidade, e ninguém entende melhor a seleção das amêndoas do que as mulheres que herdaram esse conhecimento há gerações. O projeto prevê a inclusão de 300 famílias extrativistas na cadeia produtiva, posicionando-as como guardiãs de um insumo tecnológico de alto valor. Não se trata de assistência social, mas de reconhecimento técnico: o “clique” do machado é o primeiro processo de controle de qualidade de um data center que operará IA e HPC (Computação de Alto Desempenho).
O solo que pode alimentar
O projeto não mira apenas o mercado local. Ao validar este modelo, o Maranhão se posiciona como um exportador de soluções para a economia digital global. Com a matriz energética apoiada em energia solar e o resfriamento vindo da biodiversidade, o estado cria um modelo de “Soberania Digital Sustentável”. É a prova de que a inovação não precisa ser um transplante de soluções estrangeiras, mas uma germinação do que já existe no solo.





