Pesquisa maranhense buscou entender como o excesso de açúcar no sangue remodela o cérebro e abre caminho para demências
Maria do Socorro Amorim

Graduada em Física pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestre em Física pelo Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA. Doutora em Física pelo Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA. Professora do Colégio Universitário da Universidade Federal do Maranhão (COLUN). Coordenadora do Laboratório de Impressão 3D do COLUN.
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025
Categoria: Tese de Doutorado
Área de conhecimento: Ciências Exatas e Engenharia
Título: Abordagens biofísicas e vibracionais na investigação de taupatias e declínio cognitivo associado ao diabetes
Orientadora: Luciana Magalhães Rebelo Alencar
Que o diabetes exige atenção com a dieta e o uso de insulina, todo mundo sabe. Mas e quando o impacto da doença ultrapassa o pâncreas e resolve “atacar” a arquitetura do pensamento? A relação entre a hiperglicemia (açúcar elevado no sangue) e o declínio cognitivo já era observada em consultórios, mas os mecanismos exatos dessa conexão permaneciam guardados em uma “caixa-preta” biológica. Unindo a precisão da Biofísica à urgência da saúde pública, uma pesquisa maranhense investigou como o diabetes tipo 1 e tipo 2 alteram a estrutura física e química do hipocampo – a sede da memória humana.
A pesquisa “Abordagens biofísicas e vibracionais na investigação de taupatias e declínio cognitivo associado ao diabetes” foi desenvolvida como a tese de doutorado da pesquisadora Maria do Socorro do Nascimento Amorim, que em vez de focar apenas em análises clínicas tradicionais, utilizou ferramentas de ponta para enxergar o cérebro como uma estrutura física que sofre deformações.
“Embora essa associação já seja conhecida clinicamente, ainda existem lacunas importantes na compreensão dos mecanismos físicos e estruturais envolvidos no cérebro. Assim, optei por investigar o tema utilizando técnicas biofísicas inovadoras, buscando contribuir para uma compreensão mais profunda desses processos e para o avanço de estratégias diagnósticas”, explica.
A pesquisa, coordenada pela professora Luciana Magalhães Rebelo Alencar, foi realizada por meio de um estudo experimental com modelo animal, ao longo de 24 semanas, organizado em diferentes etapas. Inicialmente, foi induzido o diabetes tipo 1 e tipo 2, seguido da avaliação do desempenho cognitivo por meio de testes de memória e aprendizado. Em seguida, os tecidos do hipocampo foram coletados e analisados utilizando técnicas avançadas de Biofísica.
Por meio da Microscopia de Força Atômica (AFM) a pesquisadora pode verificar a textura do tecido cerebral. Já utilizando a Espectroscopia Raman – uma técnica que utiliza o espalhamento da luz laser para identificar a assinatura vibracional de moléculas – Maria do Socorro do Nascimento Amorim detectou desorganização em proteínas e lipídios, sugerindo que o diabetes altera até o enovelamento das proteínas cerebrais.
Resultados do estudo
Os resultados da pesquisa evidenciaram que a hiperglicemia está diretamente associada a alterações cognitivas e estruturais no hipocampo. Os modelos diabéticos apresentaram déficits de memória e aprendizado, confirmados por testes cognitivos.

“O cérebro diabético apresentou tecidos mais rugosos e menos rígidos, com maior área e volume do tecido hipocampal, indicando uma degradação da integridade estrutural. Em conjunto, esses resultados reforçam a forte correlação entre hiperglicemia, alterações biofísicas do tecido cerebral e declínio cognitivo, contribuindo para a compreensão dos mecanismos envolvidos na demência associada ao diabetes”, pontua a pesquisadora.
Durante a pesquisa, Maria do Socorro do Nascimento Amorim observou que os principais fatores de risco observados para a correlação entre demência e hiperglicemia estavam associados às alterações metabólicas crônicas provocadas pelo diabetes. “Destacam-se a hiperglicemia persistente, que favorece processos de inflamação e estresse oxidativo, além de alterações estruturais no hipocampo”, alerta.

Prevenção do problema
Mas Maria do Socorro do Nascimento Amorim também informa que o comprometimento cognitivo associado à hiperglicemia pode ser evitado ou minimizado principalmente por meio do controle rigoroso do diabetes.
“Isso inclui a manutenção de níveis adequados de glicose no sangue, adoção de hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e controle do peso, e acompanhamento médico contínuo. Além disso, a detecção precoce de alterações cognitivas e metabólicas é fundamental, pois possibilita intervenções antecipadas que reduzem danos ao tecido cerebral”, destaca.
Estratégias que diminuam processos inflamatórios e o estresse oxidativo também são importantes, uma vez que, segundo a pesquisadora, esses mecanismos estão diretamente envolvidos no declínio cognitivo. Assim, a prevenção passa pela integração entre controle metabólico, cuidados com a saúde cerebral e diagnóstico precoce.






