Estudo explora o uso da Ageratum conyzoides L. no desenvolvimento de novos tratamentos farmacológicos.
Jhuly dos Passos

Graduanda em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Aluna de Iniciação Científica e membro da Liga Acadêmica de Saúde Única e do Núcleo de Pesquisa em Compostos Bioativos Aplicados à Medicina Veterinária da Universidade Estadual do Maranhão.
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025
Categoria: Jovem Cientista
Área de conhecimento: Ciências Agrárias
Título: Atividade Antifúngica e Efeito Sinérgico de Ageratum conyzoides L. em associação com Anfotericina B
Orientadora: Carla Janaína Rebouças Marques do Rosário

Conhecida popularmente como erva-de-são-joão (Ageratum conyzoides L), uma planta onipresente nos quintais e na vegetação nativa do Maranhão acaba de saltar do saber popular para o topo da inovação científica. A espécie é o objeto central da pesquisa de Jhully Ferreira dos Passos. O estudo, intitulado “Atividade Antifúngica e Efeito Sinérgico de Ageratum conyzoides L. em associação com Anfotericina B”, revela que essa planta comum possui propriedades capazes de potencializar tratamentos de saúde, tornando-os mais eficazes, acessíveis e significativamente menos tóxicos para os pacientes.
A descoberta destaca o imenso valor da flora maranhense como fonte de soluções terapêuticas inovadoras para a ciência moderna.
O estudo, orientado pela professora Carla Janaína Rebouças Marques do Rosário, aborda um dos maiores desafios da medicina moderna: a resistência fúngica. Fungos do gênero Candida, responsáveis por diversas infecções em humanos e animais, têm desenvolvido mecanismos de defesa, como os biofilmes, que tornam os medicamentos convencionais menos eficazes.
A grande descoberta de Jhully Ferreira reside no efeito sinérgico. Ao combinar o óleo essencial e o extrato da erva-de-são-joão, também chamada de mentrasto, com a Anfotericina B — um fármaco potente, mais conhecido pelos seus severos efeitos colaterais nos rins —, a investigadora conseguiu resultados extraordinários. A combinação permitiu reduzir em até 16 vezes a dose necessária do medicamento para eliminar o fungo.
“É a primeira vez que se regista este efeito sinérgico específico para esta planta. Não se trata apenas de substituir o remédio, mas de torná-lo melhor e mais seguro”, destaca o estudo, que já alcançou reconhecimento internacional com a publicação na prestigiada revista científica The Microbe.

Valorização da matéria-prima: o ouro verde do Maranhão
Para que este projeto ultrapasse os muros da universidade e chegue às prateleiras das farmácias, a investigação estabeleceu critérios rigorosos de padronização. A análise química identificou que a erva-de-são-joão maranhense é rica em Precoceno I, uma substância que facilita a penetração do fármaco nas células do fungo.
Esta caracterização química é o primeiro passo para a valorização da matéria-prima local. Ao identificar um “quimiotipo” específico do Maranhão, a investigação cria as bases para um selo de qualidade que pode atrair a indústria farmacêutica. Em vez de apenas uma planta medicinal, a erva passa a ser vista como um insumo tecnológico de alto valor agregado, capaz de gerar produtos como fitofármacos ou adjuvantes terapêuticos.

Impacto Social: da ciência à agricultura familiar
A inovação proposta por Jhully Ferreira tem o potencial de transformar a economia rural do estado. A valorização da Ageratum conyzoides L. abre uma oportunidade estratégica para a agricultura familiar. Como a investigação comprovou que as plantas nativas possuem uma composição química única, o cultivo padronizado desta espécie pode tornar-se uma fonte de rendimento sustentável para comunidades rurais.
Ao fornecer uma matéria-prima com qualidade certificada, o pequeno produtor maranhense torna-se o elo inicial de uma cadeia de biotecnologia. Este modelo está em perfeita harmonia com o Plano Maranhão 2050, que foca no uso racional da biodiversidade para promover o desenvolvimento econômico e a justiça social.
Brasil na Vanguarda da Biotecnologia
O trabalho premiado pela FAPEMA posiciona o Maranhão dentro de um movimento nacional de soberania científica, oferecendo uma solução prática e imediata para a crise global de resistência antimicrobiana.
Atualmente, o Brasil importa cerca de 90% dos insumos farmacêuticos ativos. Projetos como este mostram que a resposta para a dependência externa e para os desafios da saúde pública pode estar guardada na nossa própria biodiversidade.






