O estudo, conduzido pelo pesquisador Silas Alves Costa, no Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFMA, revela como o açúcar líquido se infiltra nos corpos, conecta doenças e aprofunda desigualdades ao longo de toda a vida
Silas Costa
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Doutor em Odontologia pelo Programa de Pós-graduação em Odontologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com período sanduíche realizado na Duke-NUS Medical School (Singapura). Mestre em Odontopediatria pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Odontológicas da Faculdade de Odontologia de Araraquara (FOAr/UNESP) e especialista em Saúde Pública com ênfase em Saúde da Família (UNINTER). Também cursa especialização em Análise de Dados e Inteligência Artificial pela UFMA.
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2025
Categoria: Tese de Doutorado.
Área de Conhecimento: Ciências da Saúde.
Título: Consumo de bebidas ricas em açúcares de adição: investigando as redes de interações das doenças crônicas não transmissíveis bucais e sistêmicas nos ciclos da vida.
Orientadora: Cecília Almeida
Coorientadores: Bruno de Sousa e Fábio Leite
Em São Luís, uma criança experimenta açúcar antes mesmo de aprender a falar. Em números, ela faz parte dos 62% que consomem açúcares antes dos dois anos de idade. Décadas depois, já adulta, essa mesma exposição precoce reaparece sob outra forma: cárie persistente, obesidade, diabetes, inflamação crônica. O tempo passa, mas o fio invisível permanece. Esse fio é o açúcar – e ele estrutura uma rede complexa de doenças que atravessa gerações.
É isso que demonstra a tese de doutorado do pesquisador Silas Alves Costa, defendida na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que une dados globais, cortes populacionais locais e ferramentas avançadas de análise em redes complexas para revelar como o consumo de bebidas ricas em açúcares de adição se torna um dos principais arquitetos das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) no século XXI. “O açúcar não atua de forma isolada. Ele organiza conexões. Ele cria caminhos biológicos, sociais e metabólicos que se reforçam ao longo da vida”, afirma o pesquisador.
Durante décadas, a ciência estudou as doenças crônicas como eventos paralelos: cárie de um lado, diabetes de outro, obesidade mais adiante. A inovação da pesquisa está em romper essa fragmentação. Usando bases como o Global Burden of Disease, o NHANES norte-americano e coortes de nascimento de São Luís, a tese mapeou redes de ocorrência de doenças, revelando padrões invisíveis aos métodos tradicionais.
O resultado mostra que a cárie dentária surge como o principal “hub” dessas redes, o ponto de maior centralidade que conecta doenças bucais a agravos sistêmicos em todas as fases da vida — da infância à velhice. “A cárie é tratada como algo banal, quase inevitável. Mas nossos dados mostram que ela funciona como um sinal de alerta precoce para um sistema de doenças muito maior”, diz Silas.
ACHADOS
Na infância, a cárie se conecta ao sobrepeso e à asma. Na vida adulta, a diabetes e à depressão. Na velhice, às doenças cardiovasculares e até aos declínios cognitivos. Não se trata apenas de dentes. Trata-se de biologia compartilhada, inflamação crônica e desigualdade social acumulada.
Entre adolescentes maranhenses, a pesquisa revelou um padrão especialmente preocupante. Ao mapear as redes de doenças dessa fase da vida, o estudo identificou três fatores centrais que concentram e organizam os riscos à saúde: alto consumo de açúcares livres, resistência à insulina e baixa condição socioeconômica.
Longe de atuarem isoladamente, esses fatores se conectam e se potencializam, criando um ambiente biológico e social que favorece o surgimento precoce de doenças crônicas. “A adolescência é uma janela crítica. É quando a rede ainda é maleável. Intervir ali pode quebrar trajetórias inteiras de adoecimento”, explica o pesquisador.
Meninos e meninas apresentam padrões distintos: nelas, sedentarismo e sono insuficiente concentram riscos; neles, alterações lipídicas e baixo consumo de fibras. Em ambos, a cárie permanece no centro, silenciosa e constante.
A parte mais sensível da tese mergulha nos primeiros mil dias de vida, período que vai da gestação aos dois anos de idade. O consumo materno de bebidas açucaradas e ultraprocessados, associado à vulnerabilidade socioeconômica, forma hubs centrais ligados a parto prematuro, cesarianas, macrossomia e, mais tarde, a obesidade, asma, alergias e cárie precoce nas crianças.

A teoria DOHaD ajuda a explicar: o organismo em formação “aprende” biologicamente o ambiente em que vive. “Estamos programando doenças muito antes de elas se manifestarem. E fazemos isso todos os dias, muitas vezes sem perceber”, diz Silas.
A tese, que teve como orientadora a professora Cecília Almeida e coorientação de Bruno de Sousa e Fábio Leite, também olha para o futuro. Dados globais mostram que mais de 30% da população mundial já está exposta a consumo elevado de bebidas açucaradas. Se nada mudar, esse número continuará crescendo até 2050, impulsionado por marketing agressivo, mercados pouco regulados e desigualdades estruturais.
As consequências são mensuráveis: mortes evitáveis, milhões de anos de vida perdidos por incapacidade, sistemas de saúde pressionados. “Não estamos falando apenas de escolhas individuais. Estamos falando de determinantes comerciais da saúde”, alerta o pesquisador.
Em vez de encerrar a tese nos artigos científicos — publicados em revistas como Journal of Dental Research, Journal of Clinical Periodontology e The American Journal of Clinical Nutrition — o pesquisador decidiu dar um passo além. Criou um livro digital bilíngue, acessível gratuitamente, que traduz a teoria DOHaD para a prática da odontologia. O material já ultrapassou 7 mil acessos, tornando-se referência na formação de profissionais de saúde.
“Se quisermos mudar o futuro das doenças crônicas, precisamos começar pelo começo — e isso significa proteger os primeiros anos de vida e enfrentar, com coragem, os interesses que lucram com o adoecimento”, conclui o pesquisador.






