Revista Inovação FAPEMA

BUMBA-MEU-BOI SOB A ÓTICA DE ROUSSEAU: LUXO E ENCENAÇÃO NA CULTURA POPULAR

Estudo aproxima filosofia e tradição maranhense para discutir espetáculo, aparência e identidade cultural

Jacenilde Diniz

Mestra em Cultura e Sociedade pelo Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Membro do Grupo de Estudo e Pesquisa Interdisciplinar Rousseau – GEPI Rousseau UFMA. Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Ceuma e graduação em Filosofia pela UFMA.

VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025

Categoria: Dissertação de Mestrado

Área de conhecimento: Ciências Humanas e Sociais

Título: Sob a ótica da máscara: a introdução do luxo nos espetáculos, e sua configuração na festa do bumba-meu-boi do Maranhão, a partir do pensamento de Jean-Jacques Rousseau

Orientador: Luciano Façanha

Pesquisa desenvolvida no campo da Filosofia e da Cultura lança novo olhar sobre a festa do bumba-meu-boi do Maranhão, ao analisar a introdução do luxo nos espetáculos, considerando o pensamento do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Intitulado ‘Sob a ótica da máscara: a introdução do luxo nos espetáculos, e sua configuração na festa do bumba-meu-boi do Maranhão, a partir do pensamento de Jean-Jacques Rousseau’, o estudo é conduzido pela mestra em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Jacenilde Sousa Diniz e orientado pelo doutor em Filosofia, Luciano Façanha.

A análise da pesquisadora parte da noção rousseauniana da máscara da aparência, tema debatido pelo filósofo na obra  ‘O Discurso Sobre as Ciências e as Artes’. O livro critica o suposto progresso intelectual e cultural, vindo das ciências das artes, em um contexto marcado pela máscara da aparência. “Esse cenário estimulava a vaidade e o luxo, corrompia os costumes, afastava o ser humano da simplicidade e da virtude, além de reforçar a desigualdade social”,  pontua Jacenilde Diniz.

Em contraposição, Rousseau defendia a festa cívica, pública e coletiva, realizada a céu aberto, como expressão legítima da vida social e política. Nesse modelo, não haveria separação rígida entre quem assiste e quem participa. “Ele propunha que todos fossem, ao mesmo tempo, atores e espectadores”, enfatiza a pesquisadora, ao imaginar o pensamento do filósofo sobre uma festa capaz de revelar a transparência dos corações e fortalecer os laços comunitários.

É a partir desse contraste que a pesquisa aproxima Genebra do século XVIII ao Maranhão contemporâneo. 

A pesquisadora constatou que a festa do bumba-meu-boi do Maranhão no seu formato original, apresenta características aproximadas da festa cívica rousseauniana. Contudo, com a introdução do luxo no bumba a partir da década de 90, ganha o caráter de uma festa mais à moda parisiense, corrompida pela máscara da aparência, alvo de críticas do filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Percurso histórico

Historicamente, o bumba-meu-boi foi uma manifestação popular marginalizada, associada à população negra e às periferias de São Luís. Com o tempo, no entanto, passou por um processo de ressignificação, quando houve um deslocamento simbólico. De desordeiro para criador de belezas ingênuas, de uma cultura que corrompia os valores eruditos, para ser sua tradutora em termos populares.

A Pesquisadora apresentou os estudos na PUC, em São Paulo

A pesquisa também recupera discurso entre Rousseau e d’Alembert no qual tratam da noção de papel social nos espetáculos. No teatro moderno, o espectador é separado da cena, o que, segundo Rousseau, dificulta o reconhecimento mútuo entre os indivíduos. Daí a questão levantada pela pesquisa: ao definir papéis fixos em uma festa, não se perderia a possibilidade de transparência e de leitura crítica da realidade social?

Ao analisar o bumba-meu-boi, Jacenilde Diniz identificou preocupações semelhantes e, em muitos casos, os sujeitos envolvidos na festa podem não perceber as transformações sociais, políticas e econômicas que a atravessam. O luxo, os adornos e a espetacularização tendem a revestir a festa de aparência, ocultando conflitos históricos e desigualdades ainda presentes.

A inserção do bumba-meu-boi no mercado de bens culturais, especialmente a partir da década de 1990, marcou uma nova fase da manifestação, segundo aponta relatório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), analisado pela pesquisadora. Esse período, de acordo com o documento, consolidou a institucionalização e a mercantilização da festa, abrindo espaço para o luxo como elemento central do espetáculo.

Da tradição à modernidade

Um exemplo é o surgimento e a valorização dos bois de orquestra, originados na região do Munim, que atraíram novos públicos, majoritariamente da classe média. Desta forma, o bumba-boi passa a ser um produto de exportação maranhense, e, nessa condição, precisa tornar-se um espetáculo digno de ser apreciado e aplaudido.

A consequência, aponta a pesquisadora, é uma possível divisão social no interior da própria festa, semelhante à temida por Rousseau, em Genebra. Inserido na lógica da indústria cultural, o bumba-boi corre o risco de se afastar de sua base comunitária e de dificultar o reconhecimento identitário dos sujeitos. Os produtos da indústria cultural têm a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los. Diante desse cenário, a pesquisa aponta a educação cultural como caminho estratégico. 

“Este estudo dialoga com o Plano Maranhão 2050, ao defender a valorização do ensino da história e das tradições do bumba-meu-boi nas escolas. Assim como Rousseau saiu em defesa do modo de festejar de sua república, o conhecimento crítico da própria cultura pode fortalecer a identidade maranhense e evitar que a festa se reduza apenas a espetáculo e mercadoria”, conclui a pesquisadora Jacenilde Diniz.

Jacenilde Diniz venceu o Prêmio FAPEMA 2025 na categoria Dissertação de Mestrado

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