Revista Inovação FAPEMA

SÃO LUÍS 414 ANOS: MEMÓRIA, CULTURA E CIÊNCIA AJUDAM A CONSTRUIR O FUTURO DA CAPITAL

A capital maranhense mostra que preservar seu patrimônio vai além dos casarões: envolve pessoas, saberes, cultura e novas gerações

Será possível aliar a salvaguarda da cultura popular e ao mesmo tempo fazer ciência e garantir o futuro de uma cidade? Neste ano em que São Luís comemora 414 anos de fundação, dois projetos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) mostram que a resposta é sim. Afinal, uma cidade não sobrevive quatro séculos apenas pela resistência de sua arquitetura; ela permanece viva porque respira através de suas pessoas.

Turma do Guardiões da Memória em aula de campo

São Luís tem o maior conjunto de arquitetura colonial portuguesa da América Latina, reunindo mais de 4 mil imóveis tombados dos séculos XVIII e XIX em uma área de 220 hectares no núcleo urbano tradicional. O que os projetos Patrimônio em Rede e Guardiões da Memória e Agentes da Memória, apoiados pela FAPEMA, destacam é que o grande desafio contemporâneo não é apenas restaurar os prédios históricos, mas garantir que o saber popular não evapore com o tempo. É nesse cenário que a ciência, a educação e a cultura se encontram como ferramentas de desenvolvimento.

Para Gabriela Barros Rodrigues, idealizadora e coordenadora geral do Patrimônio em Rede e Guardiões da Memória, mais do que um museu a céu aberto, o Centro Histórico é um organismo pulsante formado por moradores, trabalhadores, produtores culturais, estudantes e criativos que transformam a memória em matéria-prima de futuro.

“Para mim, quando a gente se pergunta o que precisa ser preservado para que São Luís continue sendo São Luís no futuro, a resposta ecoa nas ruas, ladeiras e praças dos 11 bairros que compõem o vasto Centro Histórico da cidade: São Luís permanece viva porque respira através de sua gente. Com relação ao título concedido pela UNESCO, São Luís tem o mesmo grau de relevância que as Pirâmides do Egito. Então, as pessoas precisam entender a dimensão desse local onde elas estão, trabalham, moram e produzem”, ressalta Gabriela Barros Rodrigues.

Fortalecimento dos laços comunitários

Moradora do Centro Histórico desde que nasceu, há 59 anos, Iria de Fátima Machado Alves sabe muito bem o que Gabriela Barros Rodrigues quer dizer. “Falamos muito em Casarões em abandono no Centro Histórico, mas esquecemos que estamos em uma região que conta com moradores, instituições públicas e empresas privadas. Portanto, poderíamos todos juntos fortalecer este grande patrimônio, mas ainda precisamos aprender a conversar para aprendermos de que forma podemos articular iniciativas que melhorem o nosso Centro”, observa.

Iria de Fátima Machado Alves também participa do projeto Patrimônio em Rede e Guardiões da Memória e é a responsável pela ideação do cultivo de hortas urbanas em casarões ociosos e abandonados. “A ideia é justamente modificar e novamente dar vida aos casarões abandonados, renovando os ambientes com hortas que podem beneficiar as pessoas em vulnerabilidade social que moram no Centro, de forma que eles também possam se sentir incentivados a participarem ativamente das iniciativas de preservação, além de garantir uma convivência em harmonia entre todos os moradores da região”, propõe.

A iniciativa de Iria de Fátima Machado Alves está sendo apoiada graças a um acordo de cooperação técnica firmado entre a FAPEMA e o Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (IESTI). Entre os principais objetivos da cooperação estão a capacitação de até 50 novos Guardiões da Memória, a consolidação de uma rede com mais de 80 instituições parceiras e a ampliação do uso e visibilidade do curso PatNET. O projeto também prevê a promoção de iniciativas locais de geração de renda e a integração efetiva com ecossistemas de inovação. O foco é ampliar a articulação interinstitucional em torno de políticas de valorização do patrimônio e desenvolvimento do Centro Histórico. 

 

O projeto Guardiões da Memória promove diversas capacitações

Centro Histórico como sala de aula e laboratório de inovação 

O grande diferencial da iniciativa está na forma como ela ativa didaticamente a comunidade por meio de ferramentas de educação patrimonial e desenvolvimento territorial. Uma das marcas registradas dessa metodologia é a chamada “pedagogia da caminhada”, executada no curso PatNET (Patrimônio na Internet). Na prática, o programa tira os participantes dos espaços tradicionais e os joga para vivenciar o centro histórico de forma ampla.

“Na nossa concepção, o próprio Centro Histórico atua como sala de aula e laboratório de inovação. A grade curricular é transdisciplinar, unindo arqueologia, cartografia de São Luís, inovação social, turismo responsável, economia criativa, produção cultural, marketing, mídia e técnicas de pitch”, pontua Gabriela Barros Rodrigues.

É graças a este modelo transdisciplinar que o projeto permite o desenvolvimento de iniciativas nas áreas mais diversas. Se por um lado, Iria de Fátima Machado Alves busca preservar o Centro Histórico por meio da ocupação comunitária em torno de hortas urbanas, o DJ e produtor Pedro Dread Lock idealizou a rádio web Vozes do Patrimônio, voltada à difusão da cultura, da memória e da preservação patrimonial.

“A ideia surgiu a partir da minha relação anterior com a comunicação, com a produção cultural e com as experiências vividas no território. A partir da minha observação e das atividades que já acompanhava, percebi a importância de criar novas formas de registrar e compartilhar histórias, saberes e manifestações culturais que fazem parte da memória da comunidade. Muitas histórias, saberes, experiências e manifestações culturais permanecem principalmente na memória de moradores, mestres da cultura, artistas, trabalhadores e outros guardiões de saberes, sem que existam registros organizados e acessíveis”, informou.

DJ Pedro Dread Lock idealizou a web radio Vozes do Patrimônio

A proposta saiu do campo da ideação e chegou à implementação da Web Rádio Vozes do Patrimônio, que atualmente está em funcionamento em caráter experimental, no endereço: https://cp-1.owh.radio.br/public/owh_s34664.

Pedro Dread Lock destaca ainda que a tecnologia é uma ferramenta, mas não é suficiente por si só.  “A participação da comunidade precisa ser fortalecida. Não dá para considerar os moradores somente como ouvintes, mas como sujeitos que possuem conhecimentos e memórias importantes e que podem participar da produção dos conteúdos. Para que a Web Rádio Vozes do Patrimônio cumpra sua função, é necessário associar os recursos digitais a uma metodologia de escuta, participação e valorização das pessoas e do território”, avalia.

UMA CIDADE, MUITAS MEMÓRIAS

Personalidades maranhenses refletem sobre a cidade que receberam, a que vivem hoje e aquela que desejam para as próximas gerações. 
Alcione (foto: Vinicius Mochizuki)

“Ser maranhense é uma coisa que eu carrego no coração, por onde eu vou. São Luís, o Maranhão, a nossa cultura, a nossa música, o nosso jeito de ser, tudo isso é parte de quem eu sou. 

Eu tive a felicidade de levar um pedacinho da minha terra para o Brasil e para o mundo, através da música. Isso, para mim, é motivo de muita gratidão. Quando eu canto, estou levando a minha voz, as histórias, a raça e força do povo maranhense. E eu tenho muito orgulho de dizer: eu sou do Maranhão, sou de São Luís, e essa terra mora em mim”. (Alcione)

César Boaes

“Uma das formas mais eficientes e sólidas de preservação da identidade de uma cidade é a cultura. É ela quem nos define e nos diferencia. Os saberes e fazeres de um povo formam sua   identidade e são  frutos da preservação da ancestralidade em seus vários aspectos. Preservar a cultura de um povo e manter o legado de suas raízes para as futuras gerações”. (César Boaes)

Thaynara OG

“São Luís tem algo que nenhuma outra cidade no mundo tem pra mim: as minhas raízes. É onde eu nasci, cresci, onde estão minha família, minhas memórias e grande parte de tudo que me tornou quem eu sou. É daqui que vem meu amor pela cultura maranhense, pelo nosso São João, pela nossa gente e por tudo que faço questão de levar comigo por onde eu vou. Posso conhecer mil lugares, mas São Luís sempre vai ter um lugar que nenhuma outra cidade consegue ocupar: o de casa”. (Thaynara OG)

Fauzy Beydoun

“É preciso pensar São Luís e toda a Ilha de forma planejada, preservando os poucos mananciais e áreas de reserva que ainda temos. A expansão industrial deveria ser direcionada para a região de Santa Rita, Bacabeira e Rosário, evitando sobrecarregar uma ilha que já é pequena e sofre com a falta de planejamento urbano. Precisamos pensar em transporte público eficiente, qualidade de vida e preservação ambiental, garantindo praias limpas e uma cidade mais organizada para as futuras gerações”. (Fauzy Beydoun)

Flávia Bittencourt

 “O que mais me toca e me surpreende em São Luís é a capacidade que essa cidade tem de guardar tantas camadas de história e, ao mesmo tempo, continuar se reinventando. 

É uma cidade que carrega no corpo a força das suas ancestralidades, da cultura popular, dos nossos tambores, do bumba-meu-boi, do reggae, da poesia e da música. São Luís está profundamente ligada à artista que me tornei. Eu carrego comigo os sons, os sotaques, os cheiros, as paisagens e, principalmente, a força das pessoas que fazem essa cidade pulsar. 

Mesmo depois de conhecer tantos lugares, quando volto para São Luís existe uma sensação de reencontro comigo mesma. E o que me surpreende é perceber que uma cidade pode mudar, crescer, enfrentar suas contradições e ainda assim conservar uma alma tão singular”. (Flávia Bittencourt)

Zeca Baleiro (foto: Necka Ayala)

“Quando penso em São Luís me vem à memória alguns lugares que eu visitava na infância e adolescência, alguns lugares que não existem mais, como a sorveteria do Hotel Central, na Praça Benedito Leite. Adorava passear na Praça Gonçalves Dias também, já que morei um tempo na casa de umas tias na rua Rio Branco. Mas o lugar mais bonito da cidade ainda hoje pra mim é a avenida Beira-Mar, a vista do rio Anil no fim da tarde e os arredores do prédio da REFFSA. É a primeira memória que me vem quando penso em São Luís”. (Zeca Baleiro)

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