Revista Inovação FAPEMA

GUARIBA-DA-CAATINGA: PESQUISA REVELA PRESENÇA E DESAFIOS PARA CONSERVAÇÃO DE MACACOS NO MARANHÃO

Estudo apoiado pela FAPEMA identificou ocorrência da espécie ameaçada de extinção em Humberto de Campos e aponta relação entre preservação do habitat e presença humana

Macaco Guariba é classificado como risco muito alto de extinção

Iasmin da Silva

Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e técnica em Meio Ambiente pelo Instituto Federal do Maranhão – Campus Centro Histórico.

Na biodiversidade maranhense, o guariba-da-caatinga (Alouatta ululata), primata endêmico do Nordeste brasileiro, é uma das espécies de macacos que encontram condições de sobrevivência neste ambiente. No entanto, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o animal enfrenta um risco muito alto de extinção na natureza.

Em Humberto de Campos, no litoral oriental maranhense, dados resultantes de uma pesquisa identificaram uma presença significativa da espécie e reuniu informações que ajudam a compreender sua relação com o ambiente e os impactos da ação humana.

O estudo foi desenvolvido pela graduanda em Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Iasmin de Castro da Silva. Com o tema “Abundância, densidade e tamanho populacional de primatas nas cidades de São Luís e Humberto de Campos” a pesquisa foi realizada num percurso de 247,2 quilômetros, considerando o esforço da análise de amostras em cinco etapas de campo. 

Embora o projeto previsse inicialmente atividades nos dois municípios, as características das áreas de São Luís levaram à concentração do trabalho de campo em Humberto de Campos, onde havia também uma lacuna de informações sobre a ocorrência da guariba-da-caatinga.

Os pesquisadores registraram 6,1 avistamentos de guariba-da-caatinga a cada 10 quilômetros e 4 avistamentos de macaco-prego-castanho (Sapajus apella) a cada 10 quilômetros. O resultado não representa o número exato de animais existentes na região, mas uma medida da frequência de encontro com as espécies durante os trajetos, permitindo comparar sua ocorrência e identificar padrões de distribuição dos primatas nas áreas estudadas.

A pesquisa aconteceu no rio Mapari e em alguns de seus igarapés, em Humberto de Campos

“Os avistamentos são a taxa de encontro que a gente tem com aquele animal a cada quilômetro. Eu comparo essa taxa de encontro com outros artigos que têm taxas de encontro bem menores, em lugares de observação também”, explica Iasmin da Silva. “Estabelecemos três rotas fixas, com extensão entre 3,3 e 4,8 quilômetros. Os percursos foram realizados mensalmente, nos períodos da manhã e da tarde, utilizando binóculos e câmera com superzoom para registrar os animais e obter informações sobre os grupos observados”, complementa.

Foram avistados diversos grupos durante a pesquisa, que aconteceu em 2023

O estudo, realizado sob orientação da  professora Lígia Tchaicka, foi apoiado pela FAPEMA e integrou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da UEMA. A pesquisa foi realizada entre setembro de 2023 e janeiro de 2024, no rio Mapari e em alguns de seus igarapés, em uma região localizada entre comunidades rurais do município.

Um alerta para a conservação
Mais do que contabilizar animais, a pesquisa contribui para compreender a qualidade dos ambientes onde eles vivem. Os primatas exercem funções importantes nos ecossistemas, especialmente na dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração da vegetação. Por serem sensíveis às alterações ambientais, também podem funcionar como indicadores das condições de conservação de determinadas áreas.

A espécie de macacos guariba predomina na região

No caso da guariba-da-caatinga, os resultados chamam atenção. Foram observados diversos grupos, alguns formados por até oito indivíduos, além de animais isolados. Os registros foram mais frequentes em trechos com menor presença humana, enquanto áreas com sinais mais evidentes de pessoas apresentaram menor ocorrência.

“É uma espécie que ocorre ali, num lugar que, por enquanto, é bom para a gente ver, mas que já apresenta sinais de desmatamento. Então, é um alerta para a conservação da biodiversidade”, destaca a pesquisadora.
A área estudada integra a Área de Proteção Ambiental (APA) de Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças e reúne diferentes ambientes, incluindo áreas de restinga e manguezais. O rio Mapari também possui importância para as comunidades locais, que utilizam seus cursos d’água para deslocamento e atividades de pesca. Essa interação entre população e ambiente, entretanto, pode produzir impactos, como o descarte inadequado de resíduos e alterações na vegetação.

Para Iasmin, a presença frequente da guariba demonstra que o ambiente ainda oferece condições favoráveis à espécie, com disponibilidade de vegetação, água e alimento. Ao mesmo tempo, os sinais de alteração identificados durante o período da pesquisa reforçam a necessidade de acompanhamento contínuo.

Conhecimento que abre novos caminhos

Outro resultado importante do trabalho foi a construção de registros que podem subsidiar novas pesquisas. Durante os deslocamentos em busca dos primatas, a pesquisadora também identificou outros animais, como quatis e preguiças, criando um pequeno banco de dados sobre a fauna observada na região.
“Eu sei que o interesse na pesquisa era com primatas, mas, ao mesmo tempo em que a gente fazia essa pesquisa, no mesmo trajeto para encontrar os macacos, também víamos outros animais. A gente anotava todos eles.

O uso de drone auxiliou na precisão dos dados da pesquisa

Por causa disso, acabamos criando um pequeno banco de dados que pode levar a outras pesquisas também”, relata.
A experiência mostra como a iniciação científica pode funcionar como porta de entrada para a produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, gerar informações úteis para estudos posteriores. No caso de espécies ameaçadas, ampliar os dados sobre ocorrência, distribuição e relação com o ambiente é fundamental para orientar estratégias de conservação.

O trabalho de Iasmin fez parte de uma pesquisa mais ampla, desenvolvida no âmbito do mestrado da pesquisadora Celene Carvalho de Sousa, voltada à compreensão da distribuição e da adequabilidade ambiental da guariba-da-caatinga. Dessa forma, os registros obtidos em Humberto de Campos contribuem para um esforço maior de conhecer a espécie e compreender como as mudanças ambientais podem afetar suas populações no futuro.

Para a bolsista, o apoio da FAPEMA também foi decisivo para viabilizar a realização do trabalho de campo fora de São Luís. “O apoio da FAPEMA permitiu a realização da pesquisa em outro município. Contribuiu com deslocamento e alimentação e me garantiu tranquilidade na execução da pesquisa”, afirma.

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