Pesquisa premiada pela FAPEMA destaca o papel da linguagem na compreensão da violência de gênero no Brasil
Hanna Almeida

Mestra em Linguística pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e pesquisadora com atuação voltada aos estudos da linguagem, cognição e suas interfaces sociais. Possui graduação em Letras, Língua Portuguesa, Língua Inglesa e suas respectivas literaturas, também pela UFMA, e especialização em Linguística e Formação de Leitores, pela Faculdade Integrada Instituto Souza (MG).
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025
Categoria: Dissertação de Mestrado
Área de conhecimento: Linguística, Letras e Artes
Título: Metáforas do amor na fala de mulheres vítimas diretas de violência doméstica
Orientadora: Monica Fontenelle Carneiro
Coorientador: Cássius Guimarães Chai
A dissertação de mestrado da pesquisadora Hanna Gabrielle do Vale Almeida, orientada pela professora Mônica Fontenelle Carneiro e coorientação de Cássius Guimarães Chai, apresenta resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher. O estudo demonstra, de forma empírica e sistematizada, que as metáforas utilizadas pelas próprias vítimas para falar do amor não apenas refletem experiências de violência, mas também contribuem para sua naturalização ou, em contextos de acolhimento, para processos de ruptura e reconstrução subjetiva.
Ancorada na Teoria da Metáfora Conceitual e em sua ampliação contemporânea, a Teoria da Metáfora Conceitual Estendida, a pesquisa avança ao aplicar uma abordagem multinível da metáfora a dados reais de mulheres vítimas diretas de violência doméstica. Essa perspectiva inovadora permite analisar simultaneamente fatores culturais, subjetivos, corporais, emocionais e discursivos envolvidos na construção do sentido de “amor” em contextos de abuso.
Um dos principais resultados do estudo é a identificação de padrões metafóricos recorrentes que atravessam diferentes regiões do país, independentemente de contexto socioeconômico ou cultural. A análise de dados provenientes do Maranhão e do Rio Grande do Sul revelou que o amor é frequentemente conceptualizado de forma ambígua e contraditória, assumindo configurações como: Amor como controle, associado à posse, ao ciúme e à dominação masculina; Amor como dano, em que a dor física e emocional é incorporada à experiência afetiva; Amor como troca, relacionado à dependência econômica e à provisão material; Amor como sacrifício, marcado pela renúncia, pela submissão e pela tolerância ao sofrimento; Amor-próprio e sororidade, que emergem como metáforas de resistência, autonomia e reconstrução identitária.
Esses resultados evidenciam que a violência não se manifesta apenas em atos físicos, mas é estruturada linguísticamente por metáforas que moldam percepções, decisões e permanências em relações abusivas. Expressões como “Às vezes o verbal dói mais do que um tapa” ou “Ele me dava tudo, mas eu não me deixava ter paz” ilustram como o sofrimento emocional é conceptualizado a partir de domínios corporais, revelando a profundidade cognitiva da violência psicológica.
Do ponto de vista da inovação, a pesquisa demonstra que o contexto não apenas influencia a interpretação das metáforas, mas participa ativamente de sua formação, reforçando a centralidade da linguagem na manutenção ou superação da violência. Nesse sentido, os resultados reforçam que o contexto vivido pelas mulheres não apenas orienta a leitura das metáforas, mas condiciona sua própria constituição, o que explica a recorrência de determinados padrões metafóricos mesmo em regiões distintas do país. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta, de forma prospectiva, para a relevância de aspectos discursivos ainda pouco explorados, como o silenciamento e práticas de abuso psicológico, a exemplo do gaslighting, indicando caminhos para investigações futuras que possam ampliar a compreensão dos processos linguísticos envolvidos na violência de gênero.
Outro resultado relevante é a identificação de uma mudança metafórica significativa nos discursos de mulheres acolhidas em Casas de Apoio. Nesses contextos institucionais, emergem metáforas associadas ao cuidado de si, à autonomia e à sororidade, indicando que políticas de acolhimento impactam diretamente a forma como as mulheres ressignificam o amor e a própria identidade.
Além de contribuir teoricamente para os estudos da metáfora na Linguística Cognitiva, a pesquisa apresenta potencial aplicado, oferecendo subsídios concretos para ações de enfrentamento à violência de gênero. Os resultados podem orientar práticas de escuta qualificada em instituições como a Casa da Mulher Brasileira, Casas de Apoio, Defensoria Pública, Ministério Público e Judiciário, ao evidenciar como a linguagem das vítimas revela estágios distintos de vulnerabilidade, naturalização ou ruptura da violência.
No contexto do Maranhão, estado com elevados índices de violência doméstica e feminicídio, o trabalho se destaca por valorizar vozes femininas locais e produzir conhecimento com impacto social direto. No entanto, de acordo com informações do governo do Estado, em 2025 o Maranhão alcançou redução de aproximadamente 27% nos casos de feminicídio, passando de 69 registros em 2024 para 51 em 2025.
A pesquisa de Hanna Gabrielle do Vale Almeida demonstra que as metáforas mobilizadas pelas mulheres para falar do amor constituem um elemento central na forma como a violência doméstica é compreendida, naturalizada ou ressignificada. Ao evidenciar que essas metáforas emergem de experiências corporais, emocionais e socioculturais concretas, o estudo revela o papel decisivo da linguagem na organização das vivências afetivas e na construção da subjetividade feminina em contextos de violência.






