Revista Inovação FAPEMA

VOÇOROCAS DE BURITICUPU REVELAM TRÊS DÉCADAS DE CRISE SOCIOAMBIENTAL URBANA NO MARANHÃO

Pesquisa jornalística vencedora do 20º Prêmio FAPEMA 2025 evidencia, com base científica, os impactos das erosões sobre moradia, segurança e direitos da população

Reportagem mostrou as voçorocas de Buriticupu, no Maranhão

Rafael Cardoso

Rafael Cardoso Souza é graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Atuou no Banco da Amazônia e no Núcleo de Produção do Telejornalismo da TV Mirante, foi repórter e apresentador do programa Interação Ciência, da TV UFMA, e atualmente é redator e apresentador do portal G1 Maranhão. 

 

VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2025

Categoria: Comunicação Científica – Jornalismo Impresso ou digital

Área de conhecimento: Ciências Exatas e da Terra

Veículo: TV Mirante – Portal G1 Maranhão

O avanço das voçorocas em áreas urbanas é um dos mais graves problemas socioambientais do Maranhão. Em Buriticupu, no oeste do estado, o fenômeno se arrasta há cerca de 30 anos, provocando o colapso de ruas, a perda de moradias e colocando milhares de famílias em situação permanente de risco. Foi ao revelar a complexidade científica, social e jurídica dessa realidade que o jornalista Rafael Cardoso Souza conquistou o 20º Prêmio FAPEMA 2025, na categoria Jornalismo Impresso ou Digital.

A reportagem “Voçorocas de Buriticupu: há 30 anos, famílias lutam por justiça e direito a moradias dignas e seguras” ganhou destaque nacional e internacional ao apresentar um panorama aprofundado do fenômeno, combinando investigação jornalística, respaldo acadêmico e recursos multimídia. O trabalho foi reconhecido pela capacidade de traduzir pesquisas científicas em informação acessível e de forte impacto social.

Buriticupu tornou-se um verdadeiro laboratório a céu aberto para pesquisadores das áreas de geociências e geografia. Estudos desenvolvidos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) apontam que a formação das voçorocas está associada à fragilidade natural do solo, predominantemente arenoso e argiloso, agravada pela ausência de saneamento básico, desmatamento, queimadas e ocupação urbana desordenada. Algumas dessas crateras já atingem até 80 metros de profundidade.

O trabalho de Rafael Souza, que é bolsista da FAPEMA, se apoia em pesquisas coordenadas por especialistas como o professor Marcelino Farias, do Departamento de Geociências da UFMA, e o professor Fernando Bezerra, do Programa de Pós-Graduação em Geografia, Natureza e Dinâmica do Espaço da UEMA. Os estudos alertam para riscos de colapso urbano caso medidas estruturais não sejam adotadas, e defendem soluções baseadas em bioengenharia, como retaludamento, revegetação e implantação de sistemas eficientes de drenagem das águas pluviais e do esgoto.

Além do rigor técnico, o trabalho jornalístico se destaca por dar voz às populações diretamente afetadas. Entre os relatos está o de Maria Antônia, que perdeu o filho após ele ser arrastado pela água da chuva. A estudante Kaillany Pinheiro, moradora do Residencial Eco Buriticupu, por sua vez, descreve o medo constante nos períodos chuvosos e a desvalorização dos imóveis próximos às erosões.

O material também registra episódios emblemáticos, como o resgate de moradores feridos após quedas nas crateras e o acidente envolvendo o policial militar aposentado José Ribamar Silveira, que despencou com uma caminhonete em uma voçoroca de aproximadamente 80 metros. Esses acontecimentos são apresentados com apoio de vídeos factuais, mapas e infográficos explicativos.

O uso de recursos visuais é um dos diferenciais do trabalho premiado. Mapas detalham a localização das sete principais voçorocas de Buriticupu, enquanto infográficos explicam, de forma didática, o processo de formação, avanço e ampliação das crateras ao longo dos anos. O conjunto reforça o caráter educativo e informativo da reportagem.

No campo jurídico, o material jornalístico evidencia a atuação do Ministério Público e da Defensoria Pública do Estado do Maranhão, que ingressaram com ações civis públicas exigindo medidas emergenciais, como sinalização das áreas de risco, concessão de aluguel social, realocação de famílias e construção de novas moradias. A reportagem mostra como o conhecimento científico tem subsidiado essas ações, embora as políticas públicas ainda avancem de forma insuficiente diante da gravidade do problema.

“Agradeço à FAPEMA pelo reconhecimento e pelo incentivo ao jornalismo científico, especialmente aos profissionais da comunicação que buscam, junto aos pesquisadores, a melhor forma de divulgar o conhecimento produzido nas universidades e seu impacto direto na sociedade. O caso das voçorocas de Buriticupu é um exemplo emblemático: por anos, pesquisadores vêm denunciando a gravidade do problema por meio de estudos científicos, que hoje alcançam o grande público graças ao trabalho da imprensa”, finaliza Rafael Cardoso.

Rafael Cardoso foi representado pela jornalista Thárcila Castro, no Prêmio FAPEMA 2025

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