Pesquisa premiada no Prêmio FAPEMA 2025 revela como comunicação científica pode fortalecer comunidades tradicionais e apontar caminhos sustentáveis para o futuro
Quécia Carvalho

Jornalista e comunicadora multimídia, com seis anos de experiência na produção de conteúdos que informam, inspiram e geram impacto social. Atua em TV, rádio, redes sociais e plataformas digitais. É autora de projetos premiados regionalmente, como os documentários Raízes de Mudança (Prêmio Sebrae de Jornalismo) e Futuro Ancestral (Prêmio Banco do Nordeste de Jornalismo).
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025
Categoria: Comunicação Científica
Área de Conhecimento: Ciências Sociais Aplicadas
Título: Futuro Ancestral – A Energia dos Quilombos
Veículo: Rádio Timbira
A reportagem que mostrou que a ciência que nasce do território, escuta quem vive nele e devolve conhecimento em forma de transformação social foi reconhecida no Prêmio FAPEMA 2025. O radiodocumentário “Futuro Ancestral – A Energia dos Quilombos”, assinado pela jornalista Quecia Carvalho, conquistou destaque na categoria Comunicação Científica (Radiojornalismo), na área de Ciências Sociais Aplicadas, consolidando-se como um exemplo de como o jornalismo pode atuar como ponte entre pesquisa, políticas públicas e comunidades tradicionais.
Produzido e veiculado pela Rádio Timbira 95,5 FM, em São Luís, o trabalho parte de uma abordagem imersiva para contar a história da comunidade quilombola Pequi da Rampa, localizada no município de Vargem Grande, no coração do Vale do Itapecuru, no Maranhão. Com duração de 30 minutos, o radiodocumentário combina narrativa jornalística, memória histórica, dados científicos e depoimentos de moradores, especialistas e gestores públicos para discutir ancestralidade, sustentabilidade e inovação.
Reconhecida oficialmente como quilombo remanescente pela Fundação Cultural Palmares em 2010, Pequi da Rampa é formada por cerca de 250 habitantes, distribuídos em 32 famílias, que mantêm um modo de vida profundamente ligado à terra. A economia local se baseia na agricultura, no extrativismo e na criação de animais, desenvolvidos a partir de práticas sustentáveis que unem saberes tradicionais e conhecimentos técnicos contemporâneos. Manifestações culturais como o Festival da Farinha, a Novena de Mariana e o Tambor de Crioula atravessam gerações e ajudam a preservar a identidade coletiva do território.
O radiodocumentário resgata ainda a origem histórica da comunidade, que remonta a 1817, quando as terras foram doadas aos antigos escravizados após a assinatura da Carta de Liberdade. Esse marco histórico deu início a um forte espírito de cooperação, que até hoje sustenta a organização social do quilombo. Um dos exemplos é o sistema de fundo rotativo comunitário, no qual parte da produção agrícola é destinada a uma conta coletiva, garantindo distribuição equitativa de recursos, investimentos comuns e maior autonomia econômica.
Ao longo da narrativa, a pesquisa evidencia como a criação da associação comunitária, em 2009, impulsionou melhorias estruturais importantes, como a casa de farinha, galpão de armazenamento, poço artesiano, acesso a máquinas e veículos agrícolas, além da implantação de um pomar comunitário, iniciado em 2018. Apesar do potencial produtivo, o documentário também revela os desafios enfrentados pela comunidade, especialmente a limitação de recursos para ampliar e manter esses projetos.

A educação aparece como um eixo central dessa história. Pequi da Rampa conta com escolas de ensino fundamental e médio dentro do próprio território, e o documentário acompanha trajetórias de jovens que acessam o ensino superior e retornam à comunidade para aplicar o conhecimento adquirido. É o caso de estudantes da área de agronomia, que passam a contribuir diretamente para o fortalecimento da produção local, mostrando como o saber acadêmico pode dialogar com a experiência ancestral.
“Este é um documentário que sempre me atravessa, porque mostra que a ciência só faz sentido quando retorna ao chão de onde nasceu. Ver jovens quilombolas ocupando a universidade e voltando para fortalecer a produção de suas próprias famílias reafirma algo em que nós, a equipe que acompanhou de perto toda a produção e execução do material, acreditamos profundamente: a inovação não precisa apagar a tradição. Ela pode — e deve — ser um caminho de permanência, dignidade e futuro para esses territórios”, afirma Quecia Carvalho, que é bolsista da FAPEMA.
Ao unir dados científicos, escuta sensível e narrativa acessível, a pesquisa demonstra como a comunicação científica pode desempenhar um papel estratégico na valorização de comunidades tradicionais, no fortalecimento de políticas públicas e na promoção de soluções sustentáveis.






