Revista Inovação FAPEMA

DO BILRO AO BIT: A TRAMA DA ANCESTRALIDADE QUE ENCONTRA O FUTURO NA RAPOSA

Um olhar sobre a economia criativa e a digitalização dos saberes tradicionais

O Corredor das Rendeiras de Bilro em Raposa (MA) localiza-se no centro da cidade, nas proximidades da Praça Chico Noca e segue em direção ao cais.

Beatriz Garreto

Técnica em Comunicação Visual pelo IFMA Monte Castelo e graduanda em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP). 

VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025

Categoria: Popvídeo Ciências

Área de Conhecimento: Letras e Artes

Título: Design de interface e experiência do app Bilroarte: Plataforma para comercialização de produtos artesanais confeccionados em rendas de bilro na Raposa-MA

Orientadora: Ádila Danúbia Marvão Nascimento Serrão

No município de Raposa, no Maranhão, o som rítmico das sementes de tucum batendo umas contra as outras dita o compasso de uma tradição secular. Ali, a renda de bilro não é apenas um adorno; é um documento histórico fabricado por mãos majoritariamente femininas. No entanto, a distância entre essa arte ancestral e o mercado consumidor moderno sempre foi um desafio geográfico e econômico. É neste cenário que surge o BilroArte, um projeto que propõe uma ponte digital entre as almofadas de renda e a economia global.

Para entender o projeto do BilroArte, é preciso analisar os dados que compõem o perfil dessa comunidade, composta 78,76% por mulheres que sustentam suas famílias através do artesanato. A realidade financeira e o isolamento digital dessas produtoras foram sintetizados por Beatriz Araujo Garreto, estudante do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) que teve como orientadora a professora Ádila Danúbia Marvão Nascimento Serrão. “Atualmente, a maioria das artesãs sobrevive com rendimentos entre um e três salários mínimos. Apenas 3% das vendas são feitas pela internet, dependendo quase totalmente de vendas diretas ou feiras”, explicou Beatriz Garreto.

Este dado revela que a dependência de vendas físicas limita o lucro a quem passa pela Raposa ou frequenta feiras específicas. O projeto, que atualmente está em fase de testes, atua justamente para romper essa limitação, transformando o celular em uma ferramenta de emancipação que permite o escoamento da produção para além das fronteiras físicas do estado.

A Gamificação como Linguagem de Inclusão

O diferencial do BilroArte não reside apenas na criação de um catálogo digital, mas na forma como ele educa e engaja o usuário. O conceito central aqui é a gamificação – a aplicação de dinâmicas de jogos em contextos práticos. Segundo Beatriz Garreto, essa estratégia é fundamental para transformar a experiência de compra em algo mais profundo: “Através de elementos de jogos, como quizzes sobre a cultura local, selos de metas e rankings, buscamos aumentar a fidelidade do cliente e o valor percebido das peças”.

Essa abordagem resolve um problema comum no artesanato: a falta de compreensão do valor por parte do comprador. Quando o usuário participa de um quiz sobre a história da renda ou acompanha um ranking de artesãs, ele deixa de ver apenas um produto e passa a reconhecer o tempo, a técnica e a vida investidos naquela peça. Para a artesã, a gamificação funciona como um guia intuitivo, onde o cadastro de produtos e a atualização de sua biografia se tornam tarefas recompensadoras visualmente, facilitando a adesão de quem possui apenas conhecimentos tecnológicos básicos.

Tecnologia Invisível, Impacto Visível

A arquitetura do BilroArte foi desenhada para ser “invisível”. Utilizando tecnologias como Flutter para a interface e Spring Boot para o processamento de dados, o trabalho de engenharia de software foca em entregar uma experiência simples. O objetivo é que a artesã não precise entender de códigos para gerir seu negócio.

O impacto humano reside na autonomia. Ao permitir que cada rendeira conte sua própria trajetória, o aplicativo combate a invisibilidade histórica dessas mulheres. O sistema não vende apenas o objeto; ele vende o processo e a herança cultural, eliminando intermediários que muitas vezes retêm a maior parte do lucro e garantindo que o retorno financeiro chegue diretamente às mãos de quem tece.

O Elo entre a Semente e o Software

A força do BilroArte está na simbiose entre o antigo e o novo. O uso de espinhos de mandacaru e bilros de semente de tucum convive agora com algoritmos de recomendação e interfaces responsivas. Não se trata de modernizar a renda — que já é perfeita em sua técnica — mas de modernizar o acesso a ela.

Ao focar em interfaces inclusivas e adaptáveis, o projeto demonstra que a tecnologia não precisa ser uma força de homogeneização. Pelo contrário, quando bem aplicada, ela se torna a guardiã das particularidades locais. O BilroArte não é apenas um aplicativo de vendas; é um manifesto de que a ancestralidade da Raposa tem lugar garantido no futuro.

Beatriz Garreto, que venceu o Prêmio FAPEMA 2025 em 1º lugar na categoria Popvídeo, foi representada na solenidade por sua mãe, Carolina Garreto

Acesse aqui e confira o vídeo no youtube para saber mais sobre o projeto BilroArte.

 

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