Iniciativa acadêmica destaca identidade, resistência cultural e inclusão por meio da linguagem
Luna Serra

Formada no Ensino Médio integrado ao Técnico em Administração pelo COLUN/UFMA, com interesse em inovação, tecnologia, cultura, acessibilidade e gestão.
Vencedora do Prêmio FAPEMA 2025
Categoria: Pesquisador (a) Júnior
Área de conhecimento: Linguística, Letras e Artes
Título: Difusão do vocabulário do Rap produzido no bairro Liberdade, em São Luís-MA, em um documentário com tradução em Libras
Orientadora: Raquel Pires Costa
O vocabulário do Rap produzido no bairro da Liberdade, em São Luís, é analisado em uma abordagem que une pesquisa acadêmica, cultura urbana e acessibilidade. Este é o foco da pesquisa ‘Difusão do vocabulário do Rap produzido no bairro Liberdade, em São Luís-MA, em um documentário com tradução em Libras’, desenvolvida pela estudante do Colégio Universitário (COLUN), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Luna Ribeiro Serra. O trabalho, estruturado em formato de documentário, propõe valorizar o Hip-hop como manifestação identitária e linguística das periferias. A pesquisa também destaca a presença feminina no Rap ludovicense.
Desde sua origem, o movimento Hip-hop se consolidou como expressão artística de grupos historicamente excluídos do espaço urbano. Formado por quatro pilares — DJ (Disc Jockey), MC (Mestre de Cerimônias/Rapper), Break Dance (dança) e grafite (arte visual) — o movimento atua como ferramenta de reconstrução simbólica da juventude negra. A base é a cultura surgida no Bronx, em Nova York, nos anos 1970, como forma de expressão e resistência, unindo música, poesia, dança e arte visual. “O Rap é ritmo e poesia, mas também é identidade, denúncia e pertencimento”, observa a pesquisadora Luna Ribeiro.
No Maranhão, apesar de presente há cerca de duas décadas, o Rap ainda é marcado pela marginalização e pelo estigma social. No campo acadêmico, os estudos sobre o gênero em São Luís são escassos. Essa lacuna motivou a criação do projeto ‘Cantar para Existir: Acervo Digital do Vocabulário do Rap em São Luís, MA’, que resultou na elaboração de um glossário com 67 verbetes do chamado Rap ludovicense. O bairro da Liberdade, escolhido como principal locação, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano de São Luís e o maior quilombo urbano do Brasil, além de ser um importante berço cultural. Além do Rap, o território abriga manifestações tradicionais como o tambor de crioula e o bumba meu boi.
Reunindo termos próprios do universo das batalhas de rima e das letras musicais, o glossário revela a riqueza lexical do Rap local. Expressões como ‘batalha de conhecimento’, ‘cria de batalha’ e ‘fundamento’ mostram como a linguagem reflete valores, vivências e formas de resistência. Cada palavra carrega uma história. A partir deste material, surgiu a proposta de difundir o vocabulário por meio de um documentário com tradução em Libras, garantindo acessibilidade a estudantes surdos.
O documentário, publicado no Youtube (https://youtube.com/watch?v=NT0X77EO2OI&feature=shared) foi dividido em duas partes e produzido a partir de pesquisa de campo, observação de Batalhas de rima e entrevistas com protagonistas da cena local. Todo o material audiovisual conta com janela de interpretação em Libras, permitindo que o conteúdo alcance públicos diversos no Maranhão e em outros estados, por meio de plataformas digitais como o YouTube.
A pesquisa foi orientada pela doutora em Estudos Linguísticos e professora do COLUN/UFMA, Raquel Pires Costa. A orientadora considera que o principal objetivo do projeto — a difusão da cultura Rap — foi alcançado. Com a visibilidade proporcionada pelo documentário, a pesquisa deve colaborar para a valorização do Hip-hop e para a propagação de saberes periféricos. “Essa cultura, ao contrário do estigma social, utiliza composições e ‘batalhas’ como um grito pela erradicação de injustiças e pela garantia de direitos essenciais”, aponta Raquel Pires.
NÚMEROS
67
Termos do Rap ludovicense reunidos no glossário
26
Mil surdos na educação básica brasileira, aponta INEP


Cultura emancipadora
Os depoimentos apontam o Rap como alternativa à violência e instrumento de transformação social. Para além de um produto audiovisual, o documentário se apresenta como uma ação de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial e de promoção da equidade cultural. “Ao valorizar o Rap da Liberdade, nosso projeto valoriza a cultura como direito, memória e possibilidade de futuro para muitos jovens da periferia”, enfatiza Luna Ribeiro.
A pesquisa visou, sobretudo, colaborar para o despertar de um novo olhar sobre as manifestações culturais das periferias de São Luís — como o Rap, frequentemente estigmatizado — e para a promoção do empoderamento dos jovens locais, na medida em que passam a se ver como detentores de um léxico com reconhecimento científico.
Outro viés abordado é a presença feminina nesse cenário. Mais participativas, porém ainda minoritárias, rappers relataram desafios, preconceitos e a luta por visibilidade em um espaço majoritariamente masculino. Para elas, o Rap desempenha papel fundamental no empoderamento feminino. Ao dar voz aos sujeitos que produzem o Hip-hop, o projeto busca desconstruir a associação entre periferia e criminalidade, argumenta a pesquisadora.
A pesquisa dialoga com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), que indicam a presença de quase 26 mil estudantes surdos na educação básica brasileira. O estudo também contou com suporte do Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais do COLUN/UFMA.






