Revista Inovação FAPEMA

ESTUDO DE MORCEGOS AUXILIA NO MANEJO E PRESERVAÇÃO DE ESPÉCIES

Pesquisas em genética e saúde animal ganharam prêmio internacional

As pesquisas dos morcegos foram realizadas em Caxias e Codó

As pesquisas no Maranhão têm contribuído para solucionar problemas locais e para o conhecimento global em diversas áreas. No campo da Biologia molecular não é diferente. Dois estudos maranhenses sobre grupos de morcegos receberam reconhecimento internacional, pela contribuição na área de genética e saúde animal.

Desenvolvidas por Lanna Grazielly Silva Gouveia, graduanda em Ciências Biológicas, e Paulo Rubens, do Programa em Biodiversidade, Ambiente e Saúde, pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Caxias, os estudos abordam a genética, os endoparasitas de morcegos e seu impacto no ecossistema ambiental.

Os trabalhos conquistaram Menção Honrosa no Prêmio Horácio Schneider e Menção Honrosa de Melhor Pôster, ambos na categoria Genética e Melhoramento Animal. A premiação, realizada em agosto, durante o International Congress of the Brazilian Genetics Society – 70º CBG, em Belém (PA), reuniu cerca de 1.800 participantes, entre pesquisadores, professores, estudantes e profissionais de diversas regiões do Brasil e de outros países.

“Este reconhecimento mostra o impacto das pesquisas que realizamos no Maranhão e confirmam a importância do investimento local para o avanço da ciência regional”, destaca a professora Claudene Barros, da UEMA-Campus Caxias. Ela liderou a pesquisa e coordena o Laboratório de Genética do complexo GENBIMOL, onde foram desenvolvidos os estudos.

 O GENBIMOL agrega os laboratórios de Genética e de Biologia Molecular, sendo referência internacional na área e ganhador de vários prêmios da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).

Lanna Grazielly Silva Gouveia trabalhou com técnicas moleculares

Taxonomia e conservação

A filogenia, estudo da evolução das espécies de morcegos neotropicais do gênero Sturnira, foi objeto do trabalho de Lanna Gouveia, que utilizou técnicas moleculares para apontar relações evolutivas entre as espécies. Um avanço importante para a taxonomia e conservação dos animais. “Significa utilizar sequências de DNA para comparar material genético dos indivíduos e identificar padrões de similaridade e divergência que refletem a história evolutiva do grupo. Com esses dados, é possível reconstruir filogenias mais precisas e compreender como as espécies se relacionam entre si ao longo do tempo”, explicou a pesquisadora.

 Esses morcegos são importantes para o equilíbrio dos ecossistemas, atuando na dispersão de sementes. Porém, sua alta similaridade morfológica dificulta a identificação das espécies, aponta Lanna Gouveia.

No gênero Sturnira, a grande semelhança morfológica dificulta a distinção entre as espécies, tornando as análises genéticas essenciais para revelar diferenças que não são visíveis externamente. A pesquisa, ao utilizar dados moleculares e métodos filogenéticos, esclarece se existe a presença de linhagens e como elas estão se diversificando, estabelecendo uma visão mais completa da evolução do grupo.

Os dados moleculares pesquisados são um grande avanço para a taxonomia, ciência que classifica os seres vivos em grupo, porque oferecem evidências objetivas que auxiliam em classificações imprecisas, em reconhecer unidades evolutivas distintas e em fortalecer a organização interna do grupo. “A partir disso, por meio desse estudo podemos oferecer uma maior precisão e confiabilidade na identificação e no enquadramento taxonômico correta das espécies do gênero Sturnira”, explicou Lanna Gouveia.

Ela falou ainda sobre a importância da pesquisa para a eficiência da conservação, que exige o conhecimento real da diversidade biológica. “Quando a distinção entre espécies é imprecisa, populações vulneráveis podem ser ignoradas ou manejadas de forma inadequada. Ao revelar a diversidade genética e as relações evolutivas, a pesquisa fornece informações essenciais para identificar unidades que requerem atenção, orientar estratégias de manejo e preservar a integridade evolutiva do grupo. Principalmente para aquelas que são críticas, como em Sturnira”, acrescentou a professora.

Doença de chagas

Outro estudo premiado foi o do mestrando Paulo Rubens, do Programa em Biodiversidade, Ambiente e Saúde/PPGBAS, UEMA-Campus Caxias e colaboração do mestrando Marxo Santana, do programa Ciência Animal/PPGCA, UEMA-Campus São Luís, que apresentou o projeto no evento internacional.

Na pesquisa foi investigada a ocorrência natural de tripanossomatídeos (parasitas que causam doença de chagas, entre outros males) em morcegos da família Phyllostomidae, no Maranhão. “Detectamos a presença de parasitas do gênero Trypanosoma, que têm importância médico-sanitária, pois podem estar relacionados à transmissão da doença de Chagas”, revela Marxo Santana.

Marxo Santana explicou que as pesquisas revelaram novos hospedeiros potenciais e mapeou regiões com circulação do parasita

O estudo apontou aumento de localidades maranhenses com circulação confirmada de Trypanosoma. Marxo Santana ressaltou que, ao integrar esses achados com outros dados, infecções já haviam sido registradas também nos municípios de Riachão, Chapadinha, Turiaçu, Cândido Mendes, Godofredo Viana e Carutapera. Dessa forma, o Maranhão totaliza oito municípios com evidência de infecção natural por parasitas em morcegos.

O pesquisador acrescentou que a pesquisa que identificou as áreas de ocorrências desses hospedeiros fornece subsídios essenciais para a vigilância sanitária. “Ao revelar novos hospedeiros potenciais e mapear regiões com circulação do parasita, o estudo auxilia na definição de áreas prioritárias para monitoramento, planejamento de ações de prevenção e acompanhamento de possíveis mudanças na dinâmica de transmissão da doença de Chagas no estado”, explicou.

A investigação envolveu captura de morcegos em diferentes municípios do Maranhão, identificação taxonômica das espécies, coleta de amostras biológicas e detecção via ferramenta molecular de tripanossomatídeos. Os pontos de coleta foram georreferenciados, permitindo mapear a distribuição dos morcegos infectados e integrar esses achados ao conhecimento já existente sobre a circulação de Trypanosoma na fauna silvestre maranhense.

Pesquisador Paulo Rubens detectou a presença de parasitas em morcegos

 

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